"Não podemos afirmar que não há mais tráfico na Cidade de Deus". A declaração do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, na gestão do ex-governador Sérgio Cabral, durante a implantação de uma das primeiras Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), era o prenúncio de que as facções criminosas não deixariam os territórios conquistados há décadas no Rio de Janeiro. Pelo contrário, Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro e as milícias expandiram a presença no Estado durante o programa de polícia de proximidade.
É o que mostra a pesquisa "Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro", do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) e o Instituto Fogo Cruzado.
Produzida desde 2018, a pesquisa mostra que o Comando Vermelho ampliou a presença em territórios do Rio de Janeiro durante o período de implantação das UPPs, entre 2008 e 2015, provavelmente pelo "efeito balão", segundo o estudo.
A presença da Polícia Militar nas favelas ocupadas estimulou parte dos integrantes do Comando Vermelho a se instalarem em outras regiões da região metropolitana do Rio de Janeiro - sobretudo na Baixada e Leste Fluminense - segundo a pesquisa.
A migração dos traficantes buscaram evitar o confronto policial em seus territórios de origem, ao mesmo tempo em que as áreas ocupadas foram mantidas ainda sob controle do grupo.
O sociólogo Daniel Hirata, professor do Departamento de Sociologia e Metodologia das Ciências Sociais da UFF e coordenador do Geni, que apesar da expansão das facções durante a implantação das UPPs ser um efeito não intencional, a política de segurança influenciou diretamente na expansão dos grupos para o interior do Estado.
"As UPPs tiveram um impacto para expansão do comando vermelho bastante importante. Elas não tinham exatamente um planejamento metropolitano, pensar o conjunto da região metropolitana do Rio. E mesmo do interior. Das 40 UPPs que chegamos a ter no Rio, 39 eram em áreas do Comando Vermelho. Isso fez com que não só lideranças, mas outros membros dessa organização se deslocassem para outros locais", disse.
Hoje, cerca de 4 milhões de moradores - 34,9% da população - vivem submetidos a regras impostas por facções e milícias. Em 2007, eram 2,5 milhões de pessoas nessas condições.
A "grande expansão", entre 2016 e 2020, dos grupos criminosos foi resultado de um contexto que conjugou "oportunidades nos mercados de terras e ampliação de serviços de infraestrutura urbana, favorecida pelos investimentos associados aos megaeventos, como também de maior disfuncionalidade estatal, o desmantelamento das UPPs e do sistema de metas, além da desastrosa intervenção federal na segurança pública", diz o estudo.
Segundo Hirata, o desmantelamento das UPPs e o sucateamento das políticas públicas de segurança no Rio de Janeiro também ampliaram o acesso das facções à regiões do Estado.
"O desmantelamento das UPPs entra no um contexto mais amplo de desmontagem do próprio Estado do Rio de Janeiro. O Estado do Rio entra em falência em 2015 e tem um detalhe importante que é o sistema de metas também. É um sistema de bonificação que praticamente dobrava o salário dos policiais naquele período. Os policiais passam a não receber nem os salários, muito menos bonificações", explica.
"Para o caso das facções do tráfico de drogas, o impacto das UPP's, com seu conhecido "efeito balão" - a interiorização causada pela migração de traficantes -, foi talvez um impulsionador da expansão do controle territorial e populacional para a Baixada e o Leste Fluminense, mas deve ser notado que o crescimento desse tipo de organização é contínuo em toda a série de 18 anos considerada", diz o estudo.
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